Pesquisa de integrantes do PECS faz triagem de 8 mil artigos e constata falta de tecnologias para a saúde de universitários negros

Publicado em 30 de julho de 2026 por Camila Pessoa

Pesquisa de integrantes do PECS faz triagem de 8 mil artigos e constata falta de tecnologias para a saúde de universitários negros

*Com informações de Digital EduHealth for the wellbeing of minority university students: a scoping review

Uma pesquisa internacional investigou 8.268 artigos e constatou uma escassez de tecnologias para a saúde de universitários negros em diferentes regiões do mundo. O estudo chama-se “EduHealth Digital para o bem-estar de estudantes universitários de minorias: uma revisão de escopo”, publicado na revista científica suíça Frontiers. Nele, os pesquisadores buscaram auxiliar no desenvolvimento de políticas digitalmente inovadoras e sensíveis às desigualdades no ensino superior. 

A equipe inclui três pesquisadores do Programa Integrado de Economia, Tecnologia e Inovação em Saúde (PECS), do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA): Jessidenes Leal, Márcio Natividade e Ramon Saavedra. O estudo conta ainda com a diretora do ISC/UFBA, Joilda Nery, e com a professora da instituição Clarice Santos Mota. Participaram da pesquisa outros cinco especialistas, das cidades de Salvador (Brasil), Porto (Portugal), Orlando (Estados Unidos) e Pompano Beach (Estados Unidos). 

O artigo introduz o conceito de Digital EduHealth (Educação e Saúde Digital), definido como a integração de componentes educacionais em tecnologias digitais voltadas à saúde para promover o bem-estar psicológico e social de estudantes universitários.

Uma das motivações para o desenvolvimento do estudo é a constatação de altos níveis de depressão e ansiedade entre estudantes universitários de todo o mundo. A proporção de estudantes com sintomas desses transtornos chega a 56% na América do Norte, 54% na América do Sul, 51% na Europa, 40% na África, 33% na Ásia e 19% na Oceania, de acordo com um estudo da Revista de Psicologia e Psiquiatria Infantil.

Inicialmente, a intenção da pesquisa sobre EduHealth era investigar a eficácia de ferramentas digitais para o bem-estar e saúde de universitários negros, mas a equipe identificou uma quantidade muito pequena de estudos sobre esse tipo de iniciativa. “Isso foi o que mais me impactou”, revela o primeiro autor da pesquisa, o doutor em Saúde Pública Jessidenes Leal.

A falta de estudos sobre o assunto levou a equipe a ampliar o escopo para todos os estudantes de minorias, incluindo indivíduos negros, indígenas, imigrantes e LGBTQIA+. Mesmo assim, dos 8.268 artigos encontrados inicialmente por meio de buscas por palavras-chave, a equipe concluiu que apenas 55 tratavam do tema analisado. Mais da metade desses estudos foi conduzida na América do Norte, com uma menor participação da Ásia, Oceania, África, Europa e América do Sul, respectivamente.

“A ausência de estratégias institucionais que promovam o bem-estar desses estudantes (pertencentes a minorias) representa uma lacuna histórica na inclusão e no cuidado”, afirmaram os autores do artigo. O estudo aponta que essa escassez de pesquisas sobre o assunto é preocupante, uma vez que os artigos analisados apontam justamente para desigualdades sistemáticas.

“Estudantes negros, latinos e de baixa renda tendem a apresentar pior desempenho acadêmico, mesmo em contextos com estratégias de apoio, como tutores e assistentes de aprendizagem”, pontuam os autores. 

Os resultados

A revisão dos estudos concluiu que intervenções digitais são capazes de expandir o acesso e contribuir para o bem-estar dos estudantes, principalmente quando consideram particularidades relacionadas à identidade, língua e contexto sociocultural do aluno. As pesquisas também relataram melhorias na autorregulação emocional, autoestima, bem-estar geral e resiliência.

Por outro lado, os pesquisadores também observaram que barreiras como exclusão digital, racismo institucional e infraestrutura precária comprometem a aderência, efetividade e inclusão dessas ferramentas.

Entre as pesquisas analisadas, foram encontradas menções a iniciativas como aplicativos móveis, plataformas online, realidade virtual, chatbots, redes sociais e ambientes virtuais de aprendizagem. 

As tecnologias foram utilizadas em estratégias como cursos online; jogos digitais; atividades de autoafirmação; aprendizagem autorregulada; letramento digital; materiais didáticos inclusivos; aplicativos de saúde mental; triagens digitais; terapia online; mindfulness digital; aconselhamento remoto; realidade virtual terapêutica; e humanos virtuais.

A maioria das iniciativas encontradas estava relacionada à saúde emocional, com 24 estudos relatando a redução de sintomas como ansiedade, estresse, depressão e sofrimento psíquico. 

Muitas pesquisas analisadas tinham a finalidade de promover o contato entre pessoas com problemas parecidos. “Todos os aplicativos que a gente estava estudando ofereciam essa possibilidade de contato. Isso traz muitos efeitos positivos. Pode não trazer a cura de doenças, mas traz evolução em vários campos”, comenta Jessidenes.

A segunda categoria mais significativa, presente em 19 estudos, foi a de reconhecimento e engajamento. Esta categoria destacou o aumento da aceitação e do uso de intervenções digitais, a identificação cultural com os conteúdos, a melhoria na escuta empática, a percepção de suporte, a valorização da diversidade e a superação de barreiras institucionais e sociais.

Por outro lado, os pesquisadores destacam que o suporte à saúde mental oferecido pelas tecnologias digitais não substitui o contato humano direto, especialmente para jovens que já estão muito expostos às telas. “Embora as universidades devam investir em programas de bem-estar baseados em tecnologia, elas também devem garantir a oferta de terapias convencionais, grupos terapêuticos e outras formas de suporte no ambiente universitário”, afirmam os especialistas, no artigo.

Limitações

A revisão representa um avanço no entendimento sobre a disponibilidade e eficácia de tecnologias de EduHealth para universitários de minorias, mas também apresenta limitações significativas, destacadas pelos pesquisadores. 

A falta de pesquisas focadas em estudantes negros obrigou os cientistas a usarem estudos mais amplos, onde esse grupo aparece apenas em segundo plano. Essa escassez impede uma análise detalhada sobre a realidade dos alunos beneficiários de ações afirmativas, um grupo que quase nunca é mencionado nos artigos avaliados.