Atividades que existiam anteriormente apenas na chamada “deepweb” – uma camada menos acessível da internet – hoje correm soltas na superfície, principalmente nos aplicativos de mensagem, como WhatsApp e Telegram. O tema foi debatido no seminário “Desinformação sobre vacinas: Caminhos para a integridade da informação”, que ocorreu nesta sexta-feira (15h), no auditório do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA).
O evento faz parte do projeto de pesquisa “Ecossistema multiplataforma e ataques à integridade da informação em saúde: impactos, padrões de disseminação e estratégias de mitigação”, desenvolvimento pelo Programa Integrado de Economia, Tecnologia e Inovação em Saúde (PECS), do ISC/UFBA, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNpq).
“Estamos fazendo uma leitura da desinformação como se fosse um vírus, com uma grande proporção de espalhamento para aqueles que não estão infectados”, comentou o coordenador do PECS, Márcio Natividade. Nessa interpretação, as próprias características das plataformas funcionam como vetor desse vírus.
O ambiente plataformizado acaba misturando esferas que antes estavam separadas, como segurança pública, religião, política e a própria saúde. Os pesquisadores constataram que é comum entre os propagadores de desinformação a utilização de assuntos da área da saúde para alarmar as pessoas e criar teorias da conspiração, mesmo ao abordar temas que não estão relacionados com a saúde.
“O corpo humano é usado como simbologia para o campo político”, enfatizou a doutora em Antropologia Letícia Cesarino, uma das integrantes do projeto. Com esse tipo de linguagem, grupos criminosos se utilizam das redes, em especial o WhatsApp e Telegram, para dissuadir as pessoas a se vacinarem ou vender serviços como certificados de vacinação falsos.

Seminário atraiu participantes de diferentes áreas do conhecimento. Foto: Anne Gabriele
Cesarino explicou que essas informações começam no campo do extremismo, em um grupo limitado de pessoas que não se vacinam e promovem desinformação. A estratégia desses grupos é imitar a linguagem encontrada nos discursos dominantes, ou que fazem parte do “mainstream”, para tornar a desinformação cada vez mais popular e “recrutar” pessoas influentes no mainstream para disseminar conteúdo antivacina.
Esse processo funciona como um “espelho invertido”, em que os mecanismos da comunicação mainstream são utilizados para divulgar informações que correspondem ao contrário do que é disseminado nos discursos dominantes. Nessa ótica, Cesarino explicou que o movimento antivacina ainda está no campo do extremo, mas já é possível dizer que ele ocupa um espaço da dúvida. Isto pode fazer com que o movimento se torne mainstream, eventualmente. “As fronteiras vão sendo forçadas aos poucos”, comentou a pesquisadora.
O problema se agrava com a constatação de que 90% dos brasileiros admitem já ter acreditado em fake news. E 62% já acreditou em fake news que falavam de políticas públicas, como vacinação. Os dados, de uma pesquisa do Instituto Locomotiva, foram trazidos pela secretária-adjunta de Comunicação Social da Presidência da República, Nina Santos, durante o evento.
Santos explicou que o governo entende a desinformação como uma ameaça à implementação das políticas públicas. Por isso, trabalha para reduzir a hesitação vacinal com base em cinco pilares. O primeiro deles diz respeito à disseminação de informações confiáveis às quais o público pode recorrer. Isto envolve uma preparação para responder perguntas, inclusive com o uso de chatbots.
Além disso, o governo oferece capacitação e treinamento para profissionais de saúde sobre desinformação; promove cooperação institucional com projetos de pesquisa para enfrentar a desinformação na saúde; desenvolve acompanhamento, análise e pesquisa para monitorar a propagação de notícias falsas; além de implementar políticas para responsabilizar disseminadores de desinformação.
O desafio é combater milhares de postagens desinformativas todos os dias. “É sim um trabalho de enxugar gelo. Mas é preciso enxugar gelo”, comentou Santos. A secretária-adjunta salientou que também é preciso usar as próprias redes para combater a desinformação, conquistando aliados não só na mídia e instituições tradicionais, como também entre os influenciadores.