Uma apresentação da metodologia desenvolvida pelo LABHDUFBA, em parceria com o PECS, para compreender um dos maiores desafios do sistema de saúde brasileiro
Em 2025, o Laboratório de Humanidades Digitais da Universidade Federal da Bahia (LABHDUFBA), em parceria com o Programa Integrado de Economia, Tecnologia e Inovação em Saúde (PECS), iniciou a aplicação de uma nova metodologia para compreender a queda da cobertura vacinal no Brasil.
Em 2008, o país alcançou um pico de aplicação de vacinas, com 213 milhões de doses. Desde então, esse número diminuiu e atingiu níveis especialmente baixos durante a pandemia, chegando a 81 milhões de doses em 2021, segundo informações divulgadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).
Apesar da recuperação observada nos últimos anos, o Brasil ainda não conseguiu retornar aos patamares anteriores de cobertura vacinal. Atualmente, a cobertura permanece em torno de 85%, abaixo da meta de 95%, considerada necessária para reduzir o risco de surtos e epidemias. Durante a pandemia, o isolamento social e as dificuldades de acesso aos serviços de saúde prejudicaram a vacinação. No entanto, a persistência de níveis baixos após a crise sanitária indica a existência de outros fatores. Entre as explicações possíveis está a circulação de informações falsas e conteúdos desinformativos.
O problema também passou a ocupar espaço na agenda internacional, sob o conceito de “ataques à integridade da informação”. No Brasil, essa preocupação motivou o lançamento de editais de pesquisa com financiamento público. Uma das iniciativas selecionadas foi o projeto “Ecossistema multiplataforma e ataques à integridade da informação em saúde: impactos, padrões de disseminação e estratégias de mitigação”, desenvolvido pelo LABHDUFBA em parceria com o PECS.
A pesquisa monitora redes sociais e coleta conteúdos para compreender os processos de ataque à integridade da informação em saúde, especialmente aqueles relacionados à vacinação infantil. A metodologia combina técnicas computacionais desenvolvidas no campo das Humanidades Digitais com conhecimentos da Saúde Coletiva e das Ciências Humanas.
“As redes sociais tomaram conta da nossa vida diária. Praticamente todos os âmbitos da vida social estão atravessados por elas, inclusive a Saúde Coletiva”, explica Leonardo Nascimento, doutor em Sociologia e coordenador do LABHDUFBA.
A coleta das postagens é realizada de forma automatizada e, quando tecnicamente possível, em tempo real. Programas de computador monitoram conteúdos publicados no WhatsApp, Telegram, YouTube e Instagram, permitindo a obtenção de materiais em áudio, texto, vídeo e imagem. Após a coleta, a equipe realiza a filtragem dos dados para identificar os conteúdos relacionados à vacinação.
“A gente está fazendo um trabalho muito inovador em comparação com outros grupos de pesquisa no mundo”, afirma Nascimento.
Além de permitir o processamento de grandes volumes de informação, a metodologia desenvolvida pelo LABHDUFBA ajuda a reduzir a perda de materiais relevantes. Conteúdos desinformativos podem ser apagados pouco tempo depois de sua publicação, seja por decisão dos próprios usuários, seja por medidas adotadas pelas plataformas ou por outras formas de responsabilização. A coleta contínua possibilita preservar esses registros para fins de pesquisa.
O estudo pretende investigar o volume, o alcance e o engajamento das postagens, além de analisar a natureza dos conteúdos divulgados e os padrões de circulação da desinformação entre diferentes plataformas.
Análise qualitativa
Depois da coleta e da organização dos dados, os pesquisadores iniciam a análise qualitativa dos conteúdos. Essa etapa envolve especialistas em Saúde Coletiva, Sociologia, Antropologia, História e Arquivologia, todos com experiência em pesquisas realizadas em ambientes digitais.
Nascimento destaca que a pesquisa em ambientes digitais possui características diferentes dos estudos tradicionais das Ciências Humanas. Nas redes sociais, é possível coletar informações enquanto elas estão sendo publicadas. Além disso, as postagens podem vir acompanhadas de metadados, como data e horário de publicação e, quando disponível, localização geográfica.
Os pesquisadores também precisam considerar que a forma de publicação pode modificar o sentido do conteúdo e, consequentemente, sua interpretação. Um mesmo vídeo publicado nos Stories ou nos Reels do Instagram pode produzir efeitos e alcançar públicos diferentes. As características técnicas de cada plataforma também condicionam a forma de comunicação. O YouTube, por exemplo, estrutura-se principalmente em torno da publicação e do consumo de vídeos.
Outro aspecto importante é o caráter interligado das plataformas. Um mesmo indivíduo pode utilizar várias redes sociais, e um conteúdo originalmente publicado em uma plataforma pode ser reproduzido, adaptado ou comentado em diversas outras. Por isso, a metodologia adota uma perspectiva multiplataforma, acompanhando não apenas conteúdos isolados, mas também seus trajetos de circulação.
Um dos principais desafios é articular conhecimentos das Ciências Sociais com competências técnicas de coleta, organização e análise de dados.
“A gente precisa ser um pouco programador para conseguir obter essas informações e transformá-las em um banco de dados”, comenta Nascimento.
Essa integração entre métodos computacionais e interpretação qualitativa constitui uma das principais contribuições metodológicas do LABHDUFBA para a pesquisa. A parceria com o PECS amplia a capacidade de relacionar essa infraestrutura de investigação digital aos problemas e às perguntas da Saúde Coletiva.